Michel Hyugen é o tecladista que lidera o projeto Neuronium. Muito simpático, ele recebeu a RPB para uma entrevista de mais de duas horas no hotel em que estava hospedado, em janeiro de 1999 no Rio de Janeiro. Foi assim, sem ninguém ficar sabendo, que Michel conheceu o Rio, além de ter participado de um programa de rádio em São Paulo, patrocinado pela Alquimusic, selo de New Age do Brasil (mais de 20 títulos). Ela está lançando dois discos do Neuronium e pretende lançar toda a discografia do Neuronium no Brasil.


RPB - Qual foi o seu primeiro contato com a música? Como tudo começou?

MH - Eu comecei a estudar música na escola, mas continuei depois em casa. Meu primeiro teclado foi dado pelos meus pais quando eu tinha quatorze anos. Foi um órgão da linha Hammond. Eles de fato sabiam que eu queria mais do que simplesmente compor músicas para piano - sabiam que eu queria algo diferente. Depois disso, então, comecei a compor com o Hammond.

RPB - Voce já morava na Espanha nesta época?

Sim, toda a minha carreira eu morei na Espanha, apesar de ser belga. Ano passado completei 35 anos morando na Eapanha...

RPB - Muitas histórias para nos contar, não é?

Sim, é verdade. A última vez que eu estive nos EUA, mais precisamente em Los Angeles, fui a uma rádio que tinha um programa muito famoso e com bastante audiência. Foi muito engraçado porque na rádio todos estavam correndo e falaram: "Você tem apenas dez minutos". E esta entrevista (que foi feita ao vivo para esta rádio em LA) durou três horas e meia.

RPB - Porque você quis mostrar as suas músicas para o público?

MH - Porque eu tinha muitas idéias naquela época. Eu queria mostrá-las. Eram sensações muito pessoais e eu queria realmente passar para as pessoas na forma de música.. Um dia, peguei um jornal e li uma notícia sobre a invenção de um novo instrumento musical que havia aparecido no mercado: o sintetizador. Foi no mesmo ano em que eu ganhei o Hammond (14 anos). Pedi para os meus pais, então, que eles trocassem o Hammond pelo sintetizador. Então dei o Hammond em troca e mais uma quantia em dinheiro pelo meu primeiro sintetizador: um Moog Sonic 6, o único (naquela época) capaz de tocar duas notas musicais ao mesmo tempo, ao invés de uma. Era um sintetizador muito bonito. Lembro bem dele: era como um grande laptop. Você abria uma espécie de "tampa" (fazendo o movimento com as mãos) e o sintetizador tinha dois speakers dentro, e um leque de possibilidades... Ah (exclamando) Eu sinto muitas saudades pois o som era absolutamente maravilhoso. Três meses depois (que este sintetizador foi lançado) saiu o Mini Moog. Resultado: três meses depois que eu havia comprado o Moog Sonic 6, já estava com o novo Mini Moog, que é um teclado bastante poderoso e que ficou no mercado por muito tempo.


O Moog Sonic 6

RPB - Você pode nos dizer se teve influências nesta época?

MH - Sem sombra de dúvida, uma grande influência no início de minha carreira foi (pensando) Klaus Schulze. Eu fiquei bastante impressionado com a música dele, principalmente com Time Wind, um disco muito bonito. Com ele, Klaus Schulze teve uma receptividade muito grande no mercado, e este disco vendeu muito para um trabalho considerado para muitos bastante "complicado". Este disco foi muito importante para mim. Depois, três discos do Tangerine Dream também me impressionaram: um deles, minto, era o solo do Edgar Froese chamado Acqua e os do Tangerine Dream foram o Phaedra e Rubycon. Phaedra é fantástico, principalmente a música Mysterious Semblance...

RPB - Seu trabalho pode ser chamado de eletrônico-progressivo?

MH - Sim, sim, com certeza pois sou um grande fã do Rock Progressivo. Foi um período onde grandes bandas apareceram na Europa tais como... (lembrando)... Genesis e... Greenslade. Você os conhece? (respondi que sim). Vi diversos shows da banda na Europa. Dave sempre tinha diversos mellotrons no palco. Greesnlade foi uma banda muito pouco reconhecida pela mídia.

RPB - Quantos discos você já lançou?

MH - São (pensando)... 27 discos... mas em breve teremos mais um! (Risos)

RPB - Você pode nos falar sobre o disco "Vuelo Quimico"?

MH - A tradução é Voo Químico.. mas o que você realmente deseja saber sobre este disco? (Michel pergunta com curiosidade) Você quer saber o porquê deste título...

RPB - Sim, sim (interrompendo) Alguma coisa relacionada com drogas ou coisas do gênero?

MH - Sim. Eu tive duas ou três experiências muito importantes com o LSD. É uma droga extremamente poderosa. Depois destas experiências, eu nunca mais voltei a usá-las. O seu cérebro, logo após você tomar o comprimido imediatamente se expande e você experimenta uma série de sensações. O que é mais importante nisto tudo é que eu não experimentei a droga sozinho. Eu estava acompanhado por dois amigos, sendo um deles um médico, que fez uma série de anotações sobre todas as experiências.

RPB - Quem é O Visitante?

MH - Como você pode perceber na capa do disco, é um alienígena. Eu realmente acredito em vida extraterrestre e que existam civilizações em outros planetas. Acredito na vida fora da Terra.

RPB - Digital Dream foi gravado no início dos anos 80. A palavra digital era algo muito novo. E Sonho Digital...

MH - Sim (interrompendo). Sonho Digital! Meus Deus, o que isto? (fazendo cara de curiosidade). Acredito que muitas pessoas compraram o disco por causa do título.

RPB - Seus discos são facilmente encontrados na Espanha? Pergunto isto pois aqui no Brasil só importado e ainda assim muito raro e caro.

MH - Sim, meu trabalho é bastante reconhecido na Espanha! Em todas as lojas você encontra meus discos. Espero que o meu acordo com a Alquimusic traga meus trabalhos para o Brasil.

RPB - Chromium Echoes é o seu disco de maior sucesso entre os fãs no Brasil. Fale um pouco mais sobre este disco

MH - CE é um disco muito especial para mim por dois motivos. Primeiro, porque foi feito em um período onde Eu e Carlos Guirao estávamos bastante integrados. Após gravarmos CE, realizamos um concerto na Espanha em um estádio de futebol para mais de 11.000 pessoas. Após finalizarmos o show, o público pediu que tocássemos mais. Então começamos a improvisar e bastava apenas um olhar (estávamos em posições opostas no palco) para saber o que iríamos tocar. Estávamos mentalmente conectados. O próprio disco é um resultado deste estado. E segundo porque CE foi o disco que tornou o Neuronium famoso no mercado mundial.. O disco foi lançado primeiramente no Canadá em 1981. Fui para lá para o lançamento do disco. CE só veio a ser lançado na Europa em 1982.

RPB - A capa tem um desenho bastante peculiar...

MH - Sim, a capa é um belo trabalho do Tomaz. No vinil, o resultado é bem mais satisfatório do que no CD.

RPB - O último trabalho com CG foi CE. Por que você se separaram?

MH - De fato muitas pessoas acham que nós brigamos e por isso nos separamos. Nós somos amigos até hoje. O que realmente aconteceu foi que o Carlos se casou e sua esposa disse: "Ou a música ou Eu". Foi apenas por causa disto.

RPB - Engraçado, porque logo depois CG lançou um disco solo...

MH - Sim. Foi o disco... (pensando) Revelations.

RPB - Neste período você mencionou o termo música psicotrônica. O que é isto?

MH - Música psicotrônica na verdade não é uma invenção minha. MP é a música que propicia um estado mental que conecta o seu cérebro e o seu corpo.. é uma música feita para que você se sinta melhor. São músicas para dar um perfeito equilíbrio entre o seu corpo e a sua mente.

RPB - Todos os seus trabalhos são conceituais?

MH - Sempre. Cada disco, CE, Heritage, Digital Dream... Meu primeiro disco solo "Absence of Reality (1982) é um disco que quando ouço, gosto muito. Acho que é um disco muito especial. Foi remasterizado e lançado a pouco tempo...

RPB - Então primeiro você pensa no conceito e depois compõe?

MH - É engraçado. Algumas vezes Eu tenho uma idéia concreta para um novo disco. Outras, estou tocando no estúdio e de repente tenho uma sensação estranha e descubro que algo está acontecendo. Na verdade é 50% para cada parte.

RPB - No primeiro disco solo pela primeira vez aparece o nome Michel Hyugen. E não Neuronium. Qual a diferença entre os dois trabalhos?

MH - CE foi lançado três ou quatro meses antes de AOR. Eu não queria um outro disco do Neuronium no mercado no mesmo ano. Os disco de MH são mais pessoais. Já com o Neuronium, Eu tenho muitas pessoas por todo o mundo seguindo o estilo eletrônico do Neuronium. Sob o meu nome, posso fazer coisas diferentes e mais pessoais. Não poderia lançar um disco de piano como Neuronium pelo fato do Neuronium estar mais ligado à música eletrônica-progressiva.. MH também... Mas quem sabe?

RPB - NMO, Neuronium é uma coisa e MH outra, apesar de ambos serem eletrônicos...

MH - É verdade. Os discos lançados pela Alquimusic são sob o nome MH/Neuronium. Pskya é um disco mais com a cara do Neuronium. Infinito também pode ser considerado como um disco do Neuronium. Mas outros discos como Elixir.. Você o conhece?

RPB - Sim.

MH - Elixir não é um disco do Neuronium na verdade...

RPB - Elixir é uma continuação de Olim...

MH - Sim. Olim vem do Latim e significa Em Outro Tempo.

RPB - Como foi trabalhar com J.J Benitez e Fernando Jiménez Del Oso em Olim e En Busca Del Mysterio?

MH - Benitez e Jiménez são grandes amigos meus. Suas séries para televisão são transmitidas por toda a Espanha e em outros países. Na última vez que estive no Peru para compor uma trilha para um seriado sobre os Incas, ao chegar no quarto do hotel, liguei a televisão e no primeiro canal que coloquei estava passando um dos capítulos de uma série para qual havia composto uma trilha. Já fiz mais de 50 trilhas para os episódios de seus programas.

RPB - Para estas séries você fez alguma gravação ao vivo?

MH - Não, não. Eu fui a diversos locais: Cuzco, Machu Pichu, Lago Titicaca, mas tudo foi gravado em meu estúdio digital na Espanha.

RPB - Você já compôs para o cinema?

MH - Sim. Fiz uma trilha para o filme Inspector Carvalho. O nome do disco é An Olimpic Death, Infelizmente o filme é muito ruim. compus a música lendo o script do filme.

RPB - Em seus discos e no seu site percebi que você fala muito sobre coisas misteriosas e Ufologia. Você já teve experiências com UFOs?

MH - Eu realmente acredito que não estamos sozinhos... realmente espero isto (risos). Pessoalmente não, mas muitos amigos sim, inclusive Gimenez. Eu realmente sinto que não estamos sozinhos. Tenho esperança em saber a "verdade".

RPB - Pela primeira vez um selo Brasileiro (Alquimusic) está lançando seus discos. Como isto aconteceu.

MH - Simone pode responder isto com mais facilidade...

Simone: O Aurio (Aurio Corrá) já conhecia os trabalhos do Neuronium desde o início, inclusive ele tem até o primeiro disco em vinil. Nós primeiro trabalhamos muito (A Alquimusic tem cinco anos) para poder chegar ao MH. Você tem que ter uma boa base para poder alcançar estes músicos de maior renome. A nossa idéia na Alquimusic sempre foi trabalhar com New Age nacional e com algo mais próximo. Talvez agora com o Neuronium possamos alcançar outros estilos, como o Eletrônico-Progressivo e o próprio Progressivo. No Brasil é muito difícil você encontrar um músico que faça a verdadeira Música Cósmica. Tem muito oportunista e nós não queremos enganar o público.
Um amigo encontrou a Tuxedo na Internet e queria comprar os disco para revender, não só os mais do estilo cósmico, e sim os de eletrônico-progressivo também. Começamos a trabalhar os discos dele por aqui. Fizemos um programa de rádio e pegamos o feedback do público antes de trazê-los. Fiquei certa de que teríamos sucesso com o Neuronium. Liguei para o Michel e fui à Barcelona para falar com ele. Hoje existe a amizade e o respeito entre nós. MH sabe que somos um selo pequeno e acredita no nosso trabalho. Conhecendo-o pessoalmente tivemos mais vontade ainda de divulgar o seu trabalho no Brasil e se possível, lançar todos o seus trabalhos. Isto irá acontecer da melhor forma possível.

RPB - Qual a sua reação ao saber que a sua música está chegando de forma mais concreta para novos ouvintes?

MH - Para mim é fantástico pois a música em geral , não é só a minha, é algo sensacional. No Brasil é diferente pois vocês tem a mente muito aberta. Para mim é muito importante pois o que componho são momentos de prazer para mim.

RPB - Infinito e Psykya (lançados pela Alquimusic) são seus novos trabalhos?

MH - Na verdade estamos mixando um novo disco do Neuronium. O título é Alienikon. Totalmente baseado no que falávamos anteriormente: a possibilidade de vida fora da Terra. O disco tem faixas curtas e uma composição um pouco mais longa (22 minutos). A primeira música tem a participação de Pascal Languirand nos vocais.

RPB - Quais são os equipamentos que estão sendo utilizados para este disco? Algum teclado analógico?

MH - Estou utilizando teclados da Kurzwell, Korg Wave Station e Kaway. Eu tive muitos teclados analógicos, mas vendi todos. Não sou muito nostálgico (risos). Atualmente só uso teclados digitais que simulam com extrema perfeição os timbres analógicos. Já usei o mellotron, mas tive muitos problemas mecânicos com ele.

RPB - Você toca outro instrumento além de teclado?

MH - Não, só teclados. É o suficiente (risos).

RPB - Todos os seus discos já foram lançados em CD?

MH - Sim. Os que estavam faltando (Vuelo Químico e Quasar) foram lançados em novembro de 98. A EMI pediu uma remasterização e fez um disco duplo com um encarte de 16 páginas.

RPB - Quais os projetos em relação a shows?

MH - Não muitos pois não quero prejudicar os meus trabalhos em estúdio. Tenho um convite para tocar na Holanda (Amsterdã).

RPB - Alguma esperança de um show no Brasil?

MH - Quem sabe? Vamos ver as surpresas que A Alquimusic está preparando...

RPB - Você tem algum trabalho especial dentre os discos já lançados? Tem algum disco que você gostaria de fazer e que ainda não foi feito?

MH - Eu gosto de todos eles, mas em especial gosto de Intimo e Numerica. Uma das faixas deste disco (The Power of ) Eu toco toda vez que entro no estúdio. Um sonho que tenho é ver a Orquestra Sinfônica de Londres tocando músicas do Neuronium.

RPB - Existem trabalhos seus não lançados ainda?

MH - Sim. Tenho um show feito em 1978 gravado diante de mais de 6000 pessoas. Neste show estavam Carlos Guirao e Alberto Gimenez (violão). Tenho diversas músicas gravadas que para mim não ficaram boas. Ainda tenho um disco inteiro gravado com Vangelis que está guardado.

RPB - Obrigado por estar com a RPB nestas últimas horas, e esperamos vê-lo em breve por aqui novamente.

MH - Eu é que agradeço e tenho certeza que vocês irão gostar do trabalho feito pela Alquimusic com os discos do Neuronium.